domingo, 5 de fevereiro de 2012

Assexualidade e poliamor: o que esses dois conceitos têm em comum?

Poliamor: refere-se a relacionamentos românticos com mais de uma pessoa, de forma honesta e ética, com o conhecimento e consentimento de todas as partes envolvidas. (Site Loving More http://www.lovemore.com/faq.php#wip )

Hoje falaremos sobre um artigo intrigante escrito pela socióloga Kristin Scherrer, cujo trabalho sobre assexualidade temos discutido em postagens anteriores. Neste artigo, publicado em um livro que trata de relações não monogâmicas, a socióloga desafia o leitor a refletir sobre as intersecções entre assexualidade e poliamor. O que será que uma orientação sexual baseada na falta de interesse por sexo pode ter em comum com um estilo de vida que pressupõe múltiplos relacionamentos afetivo-sexuais? Sendo a poligamia a característica principal dos relacionamentos poliamorosos, qual o significado da monogamia para os assexuais?
Duas constatações levaram Scherrer a estabelecer a relação entre assexualidade e poliamor. Em primeiro lugar, para ela, a assexualidade, mais do que qualquer outra orientação sexual, pode contribuir de modo singular para a compreensão de relacionamentos não fundamentados no sexo. Segundo, o foco principal do poliamor é o relacionamento romântico, não o sexual; o sexo surge como consequência do amor (diferente do swing, cujo foco é a interação sexual). Portanto, a assexualidade e o poliamor têm em comum a priorização do relacionamento romântico e não do relacionamento sexual.
Como já discutimos em outras postagens, a identidade romântica ou arromântica é muito importante para os assexuais, pois determina o interesse (ou desinteresse) em relacionamentos românticos. Scherrer acredita que uma identidade baseada na falta de interesse sexual é determinante no modo como os indivíduos constroem seus relacionamentos; esse é o ponto que ela pretende explorar neste artigo.
A socióloga observou intersecções entre assexualidade e poliamor ao analisar entrevistas feitas por ela com assexuais da AVEN. Quando solicitados a descrever qual seria o relacionamento ideal para si, muitos assexuais listaram algumas características semelhantes às dos relacionamentos poliamorosos. As três perguntas feitas pela pesquisadora aos assexuais foram as seguintes: 1) Como você diferencia relacionamento íntimo, amizade e parceria romântica? 2) Como seria um relacionamento ideal para você? 3) Você tem interesse em relacionamentos monogâmicos?
Geralmente, a existência ou inexistência de atividade sexual num relacionamento é o que diferencia amizade de romance. Essa característica dos relacionamentos no mundo “sexual” traz grandes desafios aos indivíduos assexuais para definição de seus relacionamentos, considerando que muitos desejam um relacionamento romântico no qual o sexo não esteja incluído. Torna-se difícil compreender a diferença entre romance e amizade.
Uma das entrevistadas de Scherrer afirmou que, para ela, relacionamento íntimo e parceria romântica é a mesma coisa, e significa que “a pessoa está disposta a algum grau de contato sexual, desde um beijo até intercurso.” Para esta entrevistada, amigos são pessoas que compartilham os mesmos interesses, sendo irrelevante o sexo dos envolvidos. Portanto, existe diferença entre amizade e romance. Outra entrevistada faz uma distinção entre relacionamento íntimo de parceria romântica. A descrição desta entrevistada abre um espaço para relacionamentos “mais profundos” emocionalmente do que amizades, mas que não necessariamente envolvem comportamento sexual:
Eu diria que os relacionamentos íntimos envolvem beijo e atividade sexual. Para mim, é difícil diferenciar amizade de parceria romântica. Acho que uma parceria romântica é mais física; deve ter mais confiança do que na amizade. Acho que as amizades têm mais brincadeiras e bate-papo; as parcerias românticas têm tudo isso e também discussões num nível mais profundo.
Dois outros entrevistados mostraram que a diferença entre relacionamento íntimo, amizade e parceria romântica pode ser muito mais complexa do que se pensa. Um deles respondeu que a diferença é apenas da linguagem, uma vez que estas expressões são utilizadas para categorizar relacionamentos baseados na sexualidade, mas não são úteis ou precisas para descrever os relacionamentos assexuais. Outra entrevistada acredita que amizade e romance são extremidades de um spectrum; diferentes relacionamentos podem ser localizados em qualquer ponto entre os dois polos.
Os problemas colocados pelos entrevistados na diferenciação dos termos propostos mostram como é difícil categorizar os relacionamentos assexuais utilizando os critérios utilizados em sexualidade; até mesmo as palavras existentes estão carregadas de significados que não fazem sentido para os assexuais.
Para alguns entrevistados que mostraram interesse em relacionamentos românticos ou íntimos, a monogamia é considerada importante. Esses três depoimentos são de mulheres assexuais:
Eu imagino uma relação ideal como heterossexual e monogâmica.
Eu desejo um relacionamento profundo e monogâmico com um homem, mas não desejo fazer sexo nem com ele, nem com ninguém.
Eu desejo um relacionamento íntimo e monogâmico, contanto que seja não sexual.
Scherrer observa que para alguns assexuais entrevistados é difícil pensar em monogamia fora do contexto sexual. Portanto, será que faz sentido falar em monogamia para os relacionamentos assexuais? Vejamos o que diz um jovem entrevistado:
Eu posso ter diversos relacionamentos íntimos, e isso não será considerado “traição”. Se esses relacionamentos fossem monogâmicos, então, eu teria que restringir minhas amizades com outras pessoas.
Esse depoimento nos leva a questionar se a monogamia é um conceito que só faz sentido para pessoas não assexuais. Quando se fala em “traição” num relacionamento não assexual, normalmente está-se falando da quebra de um pacto de fidelidade que tem como principal elemento a exclusividade sexual.
Enquanto a monogamia parece ser importante para alguns entrevistados, outros descrevem seus interesses românticos e relacionais de modo mais semelhante às experiências não monogâmicas de membros do poliamor. Quando perguntado sobre qual seria seu relacionamento ideal, um jovem assexual respondeu da seguinte forma:
Eu tenho interesse por relacionamentos íntimos. Poderia ser monogâmico, ou um relacionamento grupal (um relacionamento único com várias pessoas que se dedicam umas às outras, ao invés de relacionamentos múltiplos no qual os membros se relacionam dois a dois). Eu adoraria um relacionamento no qual todos os participantes fizessem parte do relacionamento como um todo.
Embora este entrevistado não utilize a palavra poliamor para descrever seu relacionamento ideal, sua descrição se aproxima do conceito de poliamor, conforme membros deste estio de vida.
Alguns entrevistados mostram-se interessados em um relacionamento poliamor, como alternativa a um relacionamento assexual monogâmico (considerando a pequena probabilidade de se encontrar um parceiro assexual para um relacionamento, ou de se encontrar um parceiro não assexual que aceite a monogamia). Não que o poliamor seja o tipo de relacionamento ideal para esses entrevistados, mas é uma opção mais viável. Aliás, o percentual de assexuais que aceitariam uma relação não monogâmica é bastante alto, possivelmente mais alto do que entre os não assexuais. Uma das entrevistadas coloca dessa forma:
Eu desejo um relacionamento monogâmico, socialmente falando. Eu não ligo para sexo, mas se meu parceiro quiser que eu faça sexo com ele, eu exigiria que ele fosse sexualmente monogâmico. Mas, se ele concordar em fazer sexo com outras pessoas, para mim, tudo bem, também.
Outra entrevistada descreve seu relacionamento ideal como “vários amigos morando juntos na mesma casa, amigos que se dediquem uns aos outros, numa relação poliamorosa.”
Scherrer conclui seu artigo ressaltando a importância da inclusão dos assexuais nas pesquisas sobre poliamor e também do estudo mais aprofundado sobre a monogamia fora do contexto dos relacionamentos afetivo-sexuais. Outro aspecto importante para estudo é o do spectrum existente entre as categorias amizade e romance, considerando que as categorias existentes não contemplam essas nuances.

TEXTO COMENTADO
Scherrer, Kristin S. Asexual relationships: what does asexuality have to do with polyamory? In: Barker, M.; Langdridge, D. Understanding non-monogamies. New York: Routledge, 2010, pages 154-159

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