sábado, 30 de julho de 2011

Assexualidade e Identidade - Parte 2/3 – O essencialismo

Hoje continuaremos a explorar os resultados da pesquisa feita pela socióloga Kristin Scherrer, da Universidade de Michigan, junto a 102 pessoas assexuais com idades entre 18 e 66 anos, recrutadas da AVEN (Asexual Visibility and Education Network). Na postagem anterior, fizemos considerações sobre a identidade assexual, que era uma das três categorias analisadas pela pesquisadora. Hoje, falaremos sobre a segunda categoria, que é o caráter essencialista da assexualidade, que emergiu como um ponto relevante na análise de Scherrer.
Não vou abordar conceitos filosóficos complexos para explicar o que é essencialismo. Para os fins deste texto, elejo a explicação mais simples possível, proposta pela Wikipedia, que diz que “essencialismo é uma generalização que determina que certas características de um grupo (de pessoas, de coisas, de idéias) são universais e não dependem de contextos específicos.” Isso é muito presente nas concepções correntes de sexualidade.
Quando dizemos que todo mundo sente desejo sexual, sem considerar que as pessoas são diferentes, que vivem em culturas diferentes, as quais impactam a forma com que vivem sua sexualidade, estamos defendendo uma visão essencialista de sexualidade. O contrário do essencialismo seria considerar que as pessoas, coisas e ideias sofrem os efeitos de diferentes contextos sociais, culturais e históricos, não havendo, portanto, verdades absolutas aplicáveis a todos os sujeitos de todas as culturas de todas as épocas. Nesse sentido, as “verdades” seriam social, cultural e historicamente construídas nas trajetórias individuais e sociais dos sujeitos. Quando dizemos que os indivíduos nascem homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou assexuais, estamos reafirmando idéias essencialistas de sexualidade. O mesmo ocorre quando dizemos que cada um escolhe sua orientação sexual, também estamos sendo essencialistas.

 Scherrer conclui que as identidades assexuais têm um relacionamento complexo com noções essencialistas de sexualidade. Muitos dos entrevistados afirmam que sempre se sentiram diferentes dos demais, e que ao “descobrir” sua assexualidade, tudo fez sentido. Para muitos, a “descoberta” da assexualidade é uma revelação de uma verdade essencial que sempre existiu, mas que estava oculta para eles. A linguagem mostra ser elemento essencial dessa descoberta. Parte da dificuldade em se assumir como assexual estava na falta de linguagem apropriada para se nomear identidades e sentimentos. As comunidades virtuais de assexuais fornecem um novo vocabulário descritivo e identitário que viabiliza esse processo.
A pesquisadora chama a atenção para um aspecto peculiar da assexualidade: a identidade assexual gira em torno de uma falta (a falta de atração/desejo sexual), e não da presença ou da existência de uma característica específica (como no casso da homossexualidade, heterossexualidade e bissexualidade). Alguns entrevistados afirmaram, também, que sua identidade assexual só é importante quando estão em um espaço assexual, como as comunidades, sendo totalmente irrelevante em outras situações. Muitos entrevistados fizeram questão de especificar a distinção entre assexualidade e celibato; essa diferença parece ser muito importante na construção de sua identidade assexual.
Todos esses elementos mostram o quanto os entrevistados veem sua assexualidade como “natural” e como essa “naturalidade” é importante em seu processo de construção de identidade. Para Scherrer, o site da AVEN facilita não somente a formação das identidades assexuais, mas também mostra a importância da legitimação da assexualidade como uma característica inata e biológica do indivíduo, ao contrário do celibato, o qual, segundo a AVEN, é uma escolha. Como orientação sexual relativamente nova, a assexualidade ainda precisa ser legitimada. A assencialização dos comportamentos e identidades sexuais tem se mostrado uma estratégia útil de legitimação para outros grupos, como gays e lésbicas. Portanto, parece lógico que seja utilizada também por grupos assexuais.
Scherrer constatou uma contradição interessanrte. Para legitimar sua assexualidade, os entrevistados tentam primeiro desconstruir a idéia essencialista de que a atração sexual é “natural” e “universal”, uma vez que parte da população não a sente. Por outro lado, descrevem sua assexualidade como “natural”, partindo portanto, do mesmo essencialismo que tentam desconstruir.
Na próxima postagem finalizaremos a discussão sobre este artigo, explorando as descobertas de Scherrer sobre a dimensão romântica da assexualidade. Até lá!

ARTIGO COMENTADO

SCHERRER, K. S. Coming to an asexual identity: negotiating identity, negotiating desire. Sexualities, 2008; Vol 11(5): 621–641

2 comentários:

  1. Nossa Bete, muito interessante a contradição existente na questão do essencialismo no caso dos assexuais e que você mostra com tanta clareza em seu texto a partir de Scherrer. Aprendi muito lendo seu texto e estou curiosa a respeito da dimensão romântica da assexualidade. Aguardo sua próxima postagem!

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  2. Bete,
    Muito boa sua provocação.
    Abs
    Lígia

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