sexta-feira, 1 de julho de 2011

Assexualidade e Identidade - Parte 1/3 - O significado

À medida que cresce timidamente o interesse da ciência pela assexualidade, compreendida como orientação dos indivíduos que não sentem atração sexual, ainda são poucas as pesquisas que exploram a identidade assexual, que é o tema do artigo sobre o qual vamos falar hoje e nas duas próximas postagens, considerando a grande riqueza da pesquisa feita pela socióloga Kristin Scherrer. 
A maior parte das poucas pesquisas publicadas sobre assexualidade parece concentrar-se em sua prevalência, em sua relação com transtornos sexuais (como o transtorno do desejo sexual hipoativo e o transtorno da aversão sexual), nos níveis de desejo sexual, no comportamento sexual de pessoas que se identificam como assexuais, bem como outras questões colocadas pela medicina e pela psicologia.
A pesquisa da socióloga Kristin S. Scherrer, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, traz um conjunto diferente de questões, mais relacionado com as experiências relatadas por indivíduos assexuais no âmbito de sua identidade. Citando Paula Rust, Scherrer afirma que o estudo da identidade é relevante, pois embora a produção da identidade seja um processo psicossocial, as conseqüências da identidade são sociais e políticas. Segundo ela, a identidade não é somente um processo introspectivo, mas ganha significado através da compreensão cultural mais ampla daquela identidade, ligando um indivíduo a um grupo com o qual este se identifica. Essa experiência identitária compartilhada pode favorecer a ação social e política, como por exemplo, a visibilidade e a demanda por direitos, como tem ocorrido com diversas minorias sexuais.
Antes da internet, os assexuais viviam isolados geograficamente, sem saber que havia outras pessoas vivendo as mesmas experiências e dificuldades enfrentadas por eles e elas. A partir da formação das comunidades virtuais e da conseqüente troca de experiências, os indivíduos assexuais membros desses espaços passaram a compartilhar uma experiência identitária coletiva, obviamente apropriada e ressignificada por cada um.
Scherrer dá como exemplo os grupos formados por gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e outras minorias sexuais. A adesão a uma identidade LGBT traz ao indivíduo a experiência social daquela identidade, que no caso das minorias sexuais, costuma ser marcada pelo preconceito e discriminação. Tanto para os LGBTs como para os assexuais, um dos espaços dessa discriminação tem sido historicamente o campo das instituições de saúde física e mental, ou seja, a medicina.
Para sua pesquisa, publicada em 2008, Scherrer recrutou 102 pessoas que se identificam como assexuais no site da AVEN (Asexual Visibility and Education Network). Essas pessoas (homens e mulheres) são de diferentes raças e nacionalidades, tendo idades entre 18 a 66 anos. A pesquisadora aplicou a essas pessoas um roteiro de entrevistas on-line com perguntas abertas. Na análise das respostas dos entrevistados, três temáticas principais emergiram no âmbito da identidade: 1) o significado da identidade assexual; 2) o caráter essencialista da assexualidade;  e 3) a dimensão romântica da assexualidade. Hoje falaremos sobre o significado da identidade assexual, deixando os dois outros temas para as duas próximas postagens.
Scherrer fez aos participantes a seguinte pergunta: O que a identidade assexual significa para você? A resposta de 44% dos entrevistados foi a própria definição de assexualidade proposta pela AVEN (“assexual é uma pessoa que não sente atração sexual”). A pesquisadora observa que para essas pessoas é difícil separar o significado internalizado da assexualidade do conceito da AVEN.
Embora a falta de atração sexual tenha sido bastante invocada para descrever a assexualidade, essa não foi a única definição utilizada pelos entrevistados. Parte dos respondentes definiu sua assexualidade como falta de interesse na atividade sexual, não necessariamente como falta de atração sexual. Portanto, para esses entrevistados, aparentemente o comportamento sexual é mais definidor da assexualidade do que a falta de atração.
Outro ponto interessante que surgiu como resultado desta pesquisa é o que, de fato, constitui sexo para cada pessoa. Embora alguns entrevistados tenham afirmado não sentir desejo sexual, demonstraram interesse em algum tipo de intimidade física, como beijos e abraços, por exemplo. Parece que a compreensão de muitos é que o sexo só acontece quando existe a penetração da vagina pelo pênis, o que a autora chama de compreensão androcêntrica do sexo, uma vez que é definida pela ação do homem sobre a mulher. Os entrevistados parecem julgar importante para a identidade assexual a definição clara da fronteira entre o carinho físico e o ato sexual explícito.
Embora a pesquisadora não tenha feito perguntas relativas à masturbação, cerca de 10% dos entrevistados mencionou a masturbação na descrição de sua identidade assexual. Alguns não sentem necessidade ou interesse pela masturbação. Outros revelam que praticam a masturbação, mas sem que haja significado sexual no ato, não sentindo necessidade de evoluir para o ato sexual com parceiro. Consideram a masturbação um ato corporal mecânico desconectado do sexo. Para Scherrer, essa separação entre masturbação e sexo é interessante, se considerarmos a associação histórica entre esses dois conceitos.
Scherrer conclui esta parte afirmando que a construção das identidades assexuais problematiza as fronteiras entre o sexual e o não sexual. A redefinição de comportamentos tradicionalmente considerados sexuais como não sexuais desafia o binarismo sexual/não sexual. As definições assexuais de sexualidade revelam a construção de atos sexuais, como a masturbação, beijos e abraços como desassociados de seus significados sexuais normalmente atribuídos a esses atos.
Na próximas duas postagens falaremos sobre os dois outros temas explorados por Scherrer neste artigo, ou seja, o caráter essencialista da assexualidade e a dimensão romântica nos relacionamentos assexuais.

ARTIGO COMENTADO

SCHERRER, K. S. Coming to an asexual identity: negotiating identity, negotiating desire. Sexualities, 2008; Vol 11(5): 621–641

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