segunda-feira, 2 de junho de 2014

Entrevista completa sobre a assexualidade para o UOL - 14/04/14

  • Assexuais não sentem desejo sexual, mas podem manter um relacionamento amoroso
Imagem do UOL


Considerando que somente partes curtas de minha entrevista ao UOL foram publicadas na matéria   "Assexuais vivem bem sem sexo, mas podem ter um relacionamento", de 14/04/14, publico abaixo a entrevista completa, que pode ser de interesse dos/as leitores/as deste blog.


1 – O que é assexualidade?

Em linhas gerais, assexualidade é a falta de interesse pela prática sexual com parceiro/a. A pessoa assexual não sente atração sexual por ninguém, nem por homens, nem por mulheres. Mas, podem sentir atração amorosa (não sexual). Esta atração amorosa pode ser pelo outro sexo, pelo mesmo sexo, por qualquer dos sexos ou independente de sexo ou gênero. O conceito de assexualidade ainda está sendo construído no seio das comunidades virtuais e pelas pesquisas. Tudo ainda é muito novo.

2 – Essa condição pode ser considerada como orientação sexual ou doença?

A falta de interesse por sexo, em alguns casos, pode ser um transtorno. Se a pessoa sempre sentiu interesse sexual, mas por algum motivo parou de sentir, pode estar com algum problema fisiológico ou psicológico. Isto não é assexualidade. Nos assexuais, esta falta de interesse é uma característica relativamente permanente, ao longo da vida. Percebem, já na puberdade, ou na adolescência, que são diferentes por não identificar-se com os modelos de sexualidade presentes na sociedade. O movimento assexual norte-americano - que é o pioneiro, mais ativo e mais numeroso -, busca o reconhecimento social da assexualidade como orientação sexual tão legítima quanto a heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, entre outras. Trata-se de perspectiva: a falta de desejo pode ser vista como um transtorno, ou como mais uma cor no arco-íris da diversidade sexual.

3 – Qual é a porcentagem estimada de assexuais no Brasil. Existem dados sobre isso?

Por ser uma sexualidade praticamente desconhecida, não temos números confiáveis, nem no Brasil, nem no mundo. A única pista que temos é de que 1% da população não tem interesse por sexo, conforme apurado pelo biólogo Alfred Kinsey em seus estudos sobre comportamento sexual dos norte-americanos nas décadas de 1940 e 1950. Mais recentemente, na década de 1990, um estudo feito na Grã-Bretanha (que não era sobre assexualidade) apontou que 1% dos entrevistados não tinha interesse por sexo. Por causa desses dois estudos, costuma-se dizer que os assexuais correspondem a 1% da população, mas este número está longe de ser o retrato da realidade. Em relação às outras sexualidades (heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, entre outras), também não existe uma estatística definitiva; os números vão mudando, conforme evoluem os costumes e avança a ciência. À medida que diminui ou aumenta a rejeição social às sexualidades minoritárias, os números dos que se identificam abertamente com certas sexualidades também podem aumentar ou diminuir.

4 – Por que uma pessoa se torna assexual? Existem causas comuns?

Ninguém se torna heterossexual, homossexual, bissexual ou assexual. Cada um constrói o que chamamos de orientação sexual a partir de diversos fatores e experiências. Não estamos falando sobre uma doença, um diagnóstico, portanto, não se pode falar em “causas”. Porém, a falta de desejo/atração sexual numa pessoa não assexual pode ter causas fisiológicas ou psicológicas. Nem toda falta de interesse por sexo é assexualidade.

5 – A assexualidade pode estar relacionada a um trauma ou à repressão?

A falta de desejo sexual em pessoas não assexuais pode estar relacionadas a diversas causas, inclusive a experiências traumáticas e depressão. É possível que existam pessoas assexuais que passaram por traumas ou outras experiências repressivas, mas também existem pessoas heterossexuais, homossexuais, bissexuais que também passaram por experiências traumáticas, mas nem por isso perderam o interesse por sexo. Portanto, não é possível afirmar que qualquer orientação sexual tenha sido causada, necessariamente, por uma experiência traumática.

6 – Qual é a diferença entre o indivíduo que tem baixa libido e o assexual? E como a pessoa pode fazer essa distinção?

Existem pessoas com baixa libido que preferem se identificar como assexuais, pois a ocorrência do desejo/atração é rara, não faz parte frequente em seu cotidiano. Outras, não. Como disse antes, a assexualidade não é um diagnóstico. É uma autoidentificação de pessoas que não sentem interesse por sexo, e que de alguma forma, chegaram a conhecer este conceito como uma categoria que está sendo estudada. Antes da criação do conceito de assexualidade (no início do século XXI), existiam pessoas sem interesse por sexo que não sabiam que existiam outras como elas no mundo. A internet tornou possível a formação de uma comunidade assexual, que passou a reconhecer-se como uma categoria.

7 – Quais são os principais objetivos da sua pesquisa sobre os assexuais? Quantas pessoas estão participando de sua pesquisa? E quando ela será concluída?

Minha pesquisa busca entender as trajetórias de pessoas que se identificam como assexuais rumo a esta autoidentificação, a partir da análise de suas experiências de socialização na família, escola, religião, trabalho e relacionamentos. Entrevistei 40 pessoas de vários estados brasileiros. Parte das entrevistas foi presencial, parte via e-mail. No momento, estou escrevendo a tese, que deverá estar pronta até o final de 2014.

8 – Existe um perfil comum entre os assexuais?

Como a assexualidade como uma categoria específica surgiu na internet, a característica comum a todas estas pessoas é que quase todas têm acesso à internet, e foi por ela que chegaram ao conceito de assexualidade. Por todas elas terem acesso à internet, existe (entre os meus entrevistados) um recorte bem claro de escolaridade, renda, classe social, gênero e raça, próprias da população brasileira que tem acesso à internet. Fora isso, os perfis são bastante heterogêneos. Vale lembrar que provavelmente existem milhares de pessoas no mundo todo que poderiam se identificar como assexuais, mas não conhecem esse conceito, por não terem acesso à internet, nem aos meios de comunicação. Por isso a estimativa de 1% é só uma pista. Ainda levará muitos anos para que tenhamos uma estatística mais próxima da realidade.

9 – É possível ser assexual por um período e depois voltar a ter vida sexual? Quando a assexualidade costuma se manifestar?

É possível ser homossexual por um tempo e depois voltar a ser heterossexual? Com a assexualidade é a mesma coisa. O comportamento sexual é só uma parte da sexualidade. E aí temos a diferença entre a assexualidade e o celibato.  Celibato diz respeito ao comportamento, implica na decisão consciente do indivíduo pela abstinência sexual, seja temporariamente ou permanentemente. Assexualidade - diferente do celibato e semelhante a outras orientações sexuais - não é uma escolha, mas uma característica do indivíduo assexual. Os assexuais tanto podem ser celibatários (por decisão própria) ou podem ser sexualmente ativos. Existem muitos assexuais que fazem sexo (mesmo sem sentir desejo ou atração), pois estão em relacionamentos amorosos com pessoas não assexuais. Outros optam pelo celibato.
Meus entrevistados revelaram que sempre se sentiram diferentes; alguns, desde a infância, outros desde a puberdade ou adolescência, a partir da observação da família, dos colegas na escola e da percepção de que eram diferentes do que presenciavam. O processo é semelhante a jovens que se percebem homossexuais. A diferença é que jovens homossexuais têm referências de identificação na mídia, na cultura. Os assexuais não têm essas referências. Isso aliado à falta de informação sobre a assexualidade pode trazer um grande sofrimento às pessoas assexuais durante a puberdade/adolescência.

10 – Os assexuais sofrem muito preconceito. Por quê?

Vivemos numa sociedade altamente sexualizada, na qual a atividade sexual e a busca por parceria amorosa são consideradas sinais de normalidade e componentes indispensáveis à felicidade. Portanto, quem não se encaixa neste parâmetro pode se sentir pressionado ou ter sua sexualidade questionada. Uma queixa comum entre os assexuais é a pressão da família para que estejam namorando, ou se casem, se reproduzam. Essas etapas lineares – seguidas pela maioria das pessoas -, podem não ser trilhadas pelas pessoas assexuais. Outra queixa é a presunção da homossexualidade. Uma pessoa que não tem interesse por sexo e/ou por relacionamentos amorosos pode ser percebida pela sociedade como homossexual, que não tem coragem de assumir publicamente sua homossexualidade.

11 – Experiências sexuais negativas, mesmo que não sejam classificadas como trauma, podem contribuir para a assexualidade?

(Acho que esta pergunta já foi respondida em questões anteriores.) Repita esta pergunta 11 (para si) substituindo a palavra assexualidade por homossexualidade ou heterossexualidade. Ajuda a entender que não há como explicar nenhuma sexualidade como produto de experiências traumáticas ou outras.
12 – Existe predominância de um gênero na assexualidade?

Como não existem estatísticas confiáveis, também não existem levantamentos sobre predominância de gênero, raça, classe, entre outras variáveis. A AVEN – Asexual Visibility and Education Network fez um levantamento entre seus membros, anos atrás, e constatou uma leve predominância das mulheres, mas isso entre seus membros. Nenhuma conclusão pode ser generalizada a partir deste levantamento.

13 – É possível ser feliz sem sexo? Os assexuais são felizes assim, não sentem falta da conexão sexual com alguém?

Somos levados a creditar que não é possível ser feliz sem sexo e sem amor. E somos levados a acreditar que o amor sempre vem junto com o desejo sexual. Mas, se pode existir sexo sem amor (isso todo mundo concorda!), por que não pode existir amor sem sexo? Os assexuais afirmam que vivem perfeitamente bem sem sexo, e isso contraria um postulado da medicina, psicologia, sexologia, que afirmam que o sexo é de fundamental importância na vida de todo mundo. Isso não é verdade para os assexuais. Eles dão muita importância a seus relacionamentos em família, com amigos (diferente de pessoas não assexuais que priorizam seus relacionamentos amorosos acima de todas as coisas). E muitos assexuais estão em relacionamentos amorosos, pois, para os assexuais, sexo e amor são coisas separadas. A maioria deseja uma parceria amorosa, preferencialmente que não seja sexual, mas muitos aceitam o sexo como parte do relacionamento amoroso.

14 – Como os assexuais veem a masturbação?

Parte dos assexuais se masturba, mas não veem a masturbação como um “treino” ou “substituição” para o sexo com parceiro. A masturbação, para eles e elas, é um fim em si mesma, um ato mecânico, sem fantasias, somente para atender a uma necessidade do corpo.

15 – Qual é a definição de arromântico? Todo arromântico é também assexual e vice-versa?

Alguns assexuais não desejam nem parceria sexual, nem parceria amorosa. A AVEN costuma chamá-los de arromânticos. A partir da emergência da discussão sobre assexualidade e dos estudos sobre este tema, começaram a surgir pessoas nas comunidades afirmando que são arromânticas, mas não são sexuais. Em linhas gerais, seria uma pessoa que sente atração sexual, pratica o sexo, mas não se apaixona, e não deseja namorar ou casar. Mas ainda não existem estudos sobre os sexuais arromânticos.

16 – O que leva as pessoas a não desejarem nenhum tipo de relacionamento amoroso? Amar e ser amado não é um anseio de todo ser humano?

Cabe perguntar também o que leva a maioria das pessoas a desejarem um relacionamento amoroso e/ou sexual. Fomos ensinados desta maneira: você vai crescer, namorar, casar, ter filhos. Pouca gente questiona essas etapas e trilha o mesmo caminho que seus bisavós, avós e pais trilharam, sem muito questionamento. Os assexuais arromânticos valorizam seus relacionamentos com a família, amigos, colegas. Não estamos falando de pessoas que se isolam da sociedade e preferem a solidão. Estamos falando de pessoas para quem a família e os amigos estão no centro de sua vida social (enquanto para a maioria de nós, nosso par romântico está em primeiro lugar em nossa vida, e os demais estão em segundo ou terceiro lugar). Vivemos hoje num mundo que oferece inúmeras oportunidades de diversão, realização pessoal, consumo, trabalho, viagens... Com tantas coisas maravilhosas disponíveis, por que a busca por parceria amorosa está em primeiro lugar? Isto também que tem que ser pensado.

17 – Por que a senhora resolveu pesquisar esse tema?

Por constatar que havia comunidades assexuais no Brasil, porém, nenhum estudo sobre assexualidade. E por perceber que o estudo da assexualidade dá visibilidade a um grupo que, até hoje, ninguém sabia que existia. A visibilidade é o primeiro passo para melhorar a qualidade de vida das pessoas assexuais. Espero que minha pesquisa possa contribuir neste sentido.

18 – Acrescente o que julgar pertinente caso eu tenha deixado de perguntar algo importante.


Os assexuais norte-americanos tentam uma aproximação com os movimentos LGBT, mas sem muito sucesso. Aqui no Brasil, ainda não existe um movimento assexual organizado, portanto, nenhuma aproximação com o movimento LBGT. Mas cabe lembrar que existem muitos assexuais homorromânticos (que têm interesse amoroso pelo mesmo sexo), birromânticos (que têm interesse amoroso por qualquer dos sexos) que, quando estão em relacionamentos com alguém do mesmo sexo, sofrem a mesma discriminação que gays e lésbicas sofrem. O sexo é privado; ninguém sabe quem faz ou não faz; mas os relacionamentos amorosos são públicos. Se dois jovens assexuais homorromânticos estiverem na rua de mãos dadas, vão ser discriminados da mesma forma que os homossexuais que fazem sexo. Por outro lado, um casal de assexuais heterorromânticos passará totalmente despercebido em termos de discriminação, pois será visto como um casal heterossexual “normal”. Se eles nunca disserem para ninguém que não fazem sexo, todo mundo vai presumir que fazem.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Assexualidade no Jornal da Cultura - 13/05/14

Matéria sobre assexualidade no Jornal da Cultura, que foi ao ar no dia 13/05/14.

https://www.youtube.com/watch?v=7Jga4VtPDXw&feature=share&t=18m6s



terça-feira, 15 de abril de 2014

Assexualidade e masturbação: reflexões de Anthony Bogaert

Em 2012, foi lançado na América do Norte o primeiro livro totalmente dedicado ao estudo da assexualidade. O livro “Understanding Asexuality” (Compreendendo a assexualidade) foi escrito pelo psicólogo social Anthony Bogaert, professor da Brock University, no Canadá. O Dr. Bogaert é um dos pioneiros no estudo da assexualidade, tendo publicado, em 2004, o artigo que inaugurou as pesquisas sobre este tema após a fundação da AVEN – Asexual Visibility and Education Network. O livro, dividido em 14 capítulos, traz temas como masturbação, sexo, gênero, identidade, transtorno, entre outros.
No Capítulo 5 do livro, o Dr. Bogaert traz importantes reflexões sobre a prática da masturbação entre as pessoas autoidentificadas como assexuais - das quais apresento aqui um resumo não analítico. É importante lembrar que Bogaert é psicólogo, portanto, sua visão do fenômeno é focada dentro das fronteiras deste campo do conhecimento – que apesar de importante, é somente uma das perspectivas possíveis. O texto mostra que o psicólogo levanta perguntas, cria hipóteses, ensaia algumas conclusões, mas não elabora respostas definitivas às questões levantadas. Embora a masturbação assexual não seja o foco da minha pesquisa, considerei importante trazer as reflexões de Bogaert para os leitores e leitoras do Blog Assexualidades, por ser um dos pouquíssimos materiais científicos a abordar este tema.
Bogaert abre o Capítulo 5 anunciando que proporá uma série de questões “idiotas” sobre a masturbação para começar o debate, pois pretende tratar a masturbação como um fenômeno da sexualidade, buscando distinguir suas especificidades em relação à assexualidade. A primeira pergunta é a seguinte: Qual a finalidade da masturbação? O pesquisador justifica que esta pergunta é boba, pois, para a maioria das pessoas, não há finalidade na masturbação, a não ser o puro prazer. A prática é prazerosa e é por isso que as pessoas fazem.  Porém, a partir da perspectiva do evolucionismo, esta é uma pergunta válida, pois a existência de qualquer variação sexual que não esteja associada à reprodução (por exemplo, homossexualidade, assexualidade e masturbação) confunde a ciência. Como estas práticas podem competir com o intercurso heterossexual, o qual tem sido responsável pela propagação de genes, por meio da reprodução humana? Portanto, para Bogaert, não há explicação evolucionária para a masturbação.
Nesse sentido, a resposta “porque traz prazer”, faz surgir a necessidade de outra pergunta: Por que a masturbação dá prazer? No levantamento feito pelo biólogo Alfred Kinsey nas décadas de 1940 e 1950, apurou-se que quase 100% dos homens e 60% das mulheres norte-americanos praticavam a masturbação. A existência de um/a parceiro/a sexual pode afetar a frequência da masturbação, mas sabe-se que a simples existência de parceiro/a não faz cessar esta prática. Bogaert revê seu posicionamento anterior, afirmando que, do ponto de vista da evolução, é possível que a masturbação seja uma prática que tem como objetivo o treinamento, ou ensaio para a prática sexual futura com parceiro/a. A masturbação pode trazer também benefícios para a saúde, tanto de homens como de mulheres, este pode ser mais um dos motivos.
A próxima pergunta de Bogaert é: As pessoas assexuais se masturbam? Um estudo recente da psicóloga Lori Brotto e equipe revela que 80% dos homens assexuais entrevistados e 70% das mulheres assexuais afirmam que praticam a masturbação. Comparando esses números com os percentuais da prática da masturbação entre pessoas não assexuais, chega-se à conclusão de que a proporção dos/as assexuais que se masturbam é altíssima, considerando que são pessoas que afirmam não ter interesse pelo sexo! Esses números não podem ser generalizados para toda a população assexual, pois todas pessoas entrevistadas na pesquisa de Brotto fazem parte da Aven – Asexuality and Education Network, portanto, um grupo muito específico de assexuais, com características próprias. Mas o ponto mais importante deste levantamento é a constatação de que uma parcela significativa dos assexuais pratica a masturbação. Isso reforça a ideia de que uma diferença importante entre os assexuais é que alguns se masturbam e outros não se masturbam.
A pergunta seguinte proposta por Bogaert é: Por que algumas pessoas assexuais se masturbam? Considerando que a assexualidade está associada a níveis baixos – ou inexistentes – de atividade sexual, cabe perguntar, portanto, o que leva alguns assexuais à prática da masturbação. Das principais justificativas para a masturbação (prazer, treinamento/ensaio e saúde), qual delas é a mais provável para explicar a prática da masturbação pelos/as assexuais? Para Bogaert, a função de treinamento/ensaio não parece ser importante para responder a esta pergunta, considerando que pessoas assexuais não têm inclinação para a prática sexual com parceiro/a. A saúde, sim, parece ser uma boa explicação, pois a masturbação alivia a tensão, e segundo alguns homens, serve para “limpar o encanamento”. Portanto, eis aí uma possível explicação fisiológica.
Neste ponto, Bogaert faz questão de lembrar um dos temas discutidos no Capítulo 2 do livro: pode existir excitação sexual (como ereção, lubrificação vaginal, orgasmo) sem que necessariamente haja atração sexual, ou desejo por outras pessoas. Portanto, não há conflito entre a masturbação e as definições mais propagadas de assexualidade. As pesquisas sugerem que a sensação experimentada por assexuais durante a masturbação pode não ser particularmente “prazerosa”, pelo menos não no contexto sexual que pessoas não assexuais experimentam. Bogaert afirma que o prazer da masturbação para os assexuais advém do alívio físico que ela proporciona, não tendo necessariamente ligação com o prazer sexual experimentado por pessoas não assexuais. Como exemplo, Bogaert conta que, conversando com um homem gay, este lhe disse que sentia mais prazer no intercurso sexual com mulheres, do que com homens. Segundo este homem gay, a estimulação proporcionada pela arquitetura específica da vagina - inclusive pela lubrificação da mesma -, torna a penetração vaginal mais prazerosa para ele do que a penetração anal, apesar de ele ser gay. Isso leva a crer que o prazer físico subjetivo e a sensação proveniente da excitação podem não estar associados necessariamente ao objeto da atração sexual.
A próxima pergunta de Bogaert é: No que pensam as pessoas assexuais quando se masturbam? Ou, seja, qual a inspiração para a masturbação assexual? Aqui, Bogaert refere-se à existência ou não de fantasias sexuais durante o ato da masturbação por pessoas assexuais. Pessoas não assexuais normalmente se masturbam fantasiando uma pessoa, uma situação, ou olhando uma fotografia, lendo literatura erótica ou assistindo pornografia. Isso não parece ocorrer com todas as pessoas assexuais que se masturbam. Bogaert fez estas perguntas a um homem assexual, o qual, depois de pensar muito, respondeu que não pensa em nada específico quando se masturba. Esta resposta fez sentido para Bogaert, considerando que o desejo (ou libido) das pessoas assexuais não é direcionado a outras pessoas, portanto, é coerente que não haja fantasias ligadas ao ato sexual com parceiros/as.
Para Bogaert, esta masturbação não direcionada reforça a ideia de que grande parte dos assexuais não têm fantasias sexuais, pelo menos, não da mesma maneira que pessoas não assexuais. Bogaert diz que a pesquisa de Brotto sugere que alguns assexuais têm fantasias, mas não está claro neste estudo se as fantasias ocorrem ou não durante a masturbação, se tratam-se de fantasias românticas, e qual a função das fantasias. Esta masturbação não direcionada também reforça a ideia de que para as pessoas assexuais a masturbação não tem a função de treinamento/ensaio para outras práticas sexuais com parceiro/a.
A última pergunta proposta por Bogaert é: E se uma pequena porcentagem de assexuais têm fantasias durante a masturbação?  O que isto significaria? Bogaert acredita que as fantasias sexuais são mais importantes do que o próprio comportamento sexual como componente da sexualidade, pois revelam mais sobre desejo e atração do que o próprio comportamento, que pode ser motivado por fatores sociais, por exemplo. As fantasias são individuais, livres, não sujeitas a censura (a não ser a censura do próprio indivíduo), constituindo-se como puro reflexo da verdadeira atração, não há compromisso, pode-se fantasiar sobre qualquer coisa, pessoa ou situação.
Quando Bogaert perguntou àquele mesmo homem assexual se ele tinha fantasias durante a masturbação, o indivíduo não entendeu a pergunta e teve que pensar muito antes de responder que não pensava em nada especificamente.  Este jovem é considerado assexual na perspectiva de Bogaert, porque apesar de praticar a masturbação, este ato não é direcionado a nada nem a ninguém. No entanto, Bogaert diz que conhece assexuais que têm fantasias consistentes e selecionam estímulos específicos para a prática da masturbação. Parece ocorrer algum nível de fantasia. Bogaert, como todo bom psicólogo, pergunta-se também se os indivíduos assexuais que têm fantasias não são portadores de algum tipo de parafilia, algum tipo de atração difusa, pouco comum e ainda não estudada.
Em suas conclusões, Bogaert enfatiza que embora pessoas assexuais possam ter fantasias, estas parecem ser desassociadas da atividade sexual. Isso significa que apesar das fantasias, as pessoas assexuais não se colocam no cenário criado por sua própria fantasia. Por exemplo, não se imaginam como participantes da cena de pornografia que estão assistindo, ou da leitura erótica que estão fazendo, a não ser como meros espectadores ou observadores. Não sentem atração por nada nem por ninguém, mas seus corpos - ou alguns aspectos de suas mentes relacionadas à excitação sexual -, podem ainda precisar de estímulo sexual para que eles se masturbem. Esta desconexão entre identidade, masturbação e fantasias sexuais é intrigante para a ciência e precisa ser estudada.

Referência Bibliográfica

BOGAERT, Anthony. “To masturbate or not masturbate”. In: Understanding Asexuality, Chapter 5, pg. 55-65. Lanham: Rowman & Littlefield Publishers, 2012

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Artigo do UOL sobre assexualidade




Link para a matéria do UOL sobre assexualidade, publicada em 14/04/13:  http://mulher.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2014/04/14/assexuais-vivem-bem-sem-sexo-mas-podem-ter-um-relacionamento.htm

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Assexualidade no Fazendo Gênero 10 - Florianópolis





Link para meu artigo sobre assexualidade apresentado na Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, em setembro de 2013, no evento Fazendo Gênero 10.

http://www.fazendogenero.ufsc.br/10/resources/anais/20/1384778146_ARQUIVO_ElisabeteReginaBaptistadeOliveira.pdf

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Entrevista sobre assexualidade - Programa Lelah Monteiro





Link para minha entrevista com a sexóloga Lelah Monteiro, que foi ao ar em 03/02/2014, na Just TV:
http://www.youtube.com/watch?v=6Xw_KT5nJnA&feature=youtu.be

Entrevista sobre assexualidade - Programa Prazer em Conhecer






Link para minha entrevista sobre assexualidade para a sexóloga e psicóloga Rose Villela, que foi ao ar em 05/11/2013:  http://mais.uol.com.br/view/pyw9hw9l36ux/saiba-tudo-sobre-assexuais-04020D1B3664D0B94326?types=A